|
Desde os anos 80 o Brasil vem se transformando numa velocidade significativa. Em 1984 o Movimento Diretas-Já marcou o início emblemático da redemocratização do País que, embora já sentisse brisas levemente democráticas pouco antes, presenciou milhões de pessoas nas ruas de todos os seus cantos participando da derrocada da ditadura militar.
A conquista da democracia ainda frágil foi se consolidando lado a lado com a modernização do País e a estabilização da economia. Do ponto de vista do trabalho, o Brasil superou um estado de arrocho salarial e desemprego, que massacraram a vida de milhões de brasileiros e brasileiras nos anos 80 e meados dos anos 90; a pobreza e a miséria passaram a ser um alvo na agenda nacional a partir da década de 2000. Seu combate mobilizou governos e cidadãos e foi, em grande parte, um fator que impulsionou o nascente Terceiro Setor.
O Centro de Atendimento ao Trabalhador (Ceat) surge justamente no bojo do combate à miséria e à pobreza, com uma proposta de inserção socioprodutiva como fator de resgate da dignidade dos trabalhadores e trabalhadoras, em especial os excluídos entre os excluídos, os que estão nas chamadas “franjas” da sociedade. Com o tempo, era evidente que, a despeito da melhora dos indicadores socioeconômicos, esses trabalhadores ainda permaneciam alijados das oportunidades do mercado, sobretudo em função de sua baixa qualificação profissional, ou eram inseridos em subempregos, na esteira da precarização do trabalho.
Os inúmeros projetos e programas de combate à miséria foram seguidos de iniciativas de inserção no mercado, como os PlanTeQs - Planos Territoriais de Qualificação e PlanSeQs – Planos Setoriais de Qualificação, que articulavam a qualificação social e profissional à intermediação de mão de obra como forma de combate à exclusão.
Indubitavelmente o crescimento da economia trouxe ascensão econômica de alguns setores populares à classe média. Entretanto, essa ascensão não foi seguida de amplo acesso à Educação, à Cultura, à Saúde e às conquistas sociais. Trata-se, portanto, de uma bolha, de um inchaço, e não de um crescimento propriamente dito. Como todo inchaço, há de ceder e, passada a euforia do primeiro momento, deve-se constituir como uma questão a ser superada.
Assim, a despeito dos esforços dos últimos governos para combater a pobreza e a miséria, é preciso que isso seja traduzido em melhores condições de vida – e não apenas de consumo – para a população brasileira. Caso a Educação e a qualificação de trabalhadores e trabalhadoras não estejam atreladas a essa nova situação de consumo, é provável que anos e anos de investimento sejam jogados janela afora.
Para além da pobreza e da miséria, é preciso haver ações no combate à desigualdade de oportunidades, que se caracteriza pela universalização do acesso aos bens materiais e imateriais produzidos pela sociedade. Apesar do processo evolutivo, os mais excluídos entre os excluídos, público prioritário do Ceat, ainda recebem pacotes residuais de bem-estar e de qualidade de vida.
O combate à precarização do emprego e do trabalho, a geração de renda e o fortalecimento da educação e da qualificação dos trabalhadores e trabalhadoras são, necessariamente, aspectos que devem constar de uma agenda social do trabalho. Essa agenda deve se pautar não apenas em construções individuais, mas em saídas coletivas para a superação de um cenário que começa a surgir e que, paradoxalmente, já se mostra obsoleto, dados os desafios dos megaeventos que o Brasil sediará. Nesse contexto, o País precisa trocar a roda com o carro andando, ou seja, olhar para o futuro sem se desprender do presente urgente, que requererá profissionais minimamente habilitados a lidarem com a situação de pleno emprego, antes que ele se torne emprego nenhum.
Jorgette Oliveira
|